segunda-feira, 19 de novembro de 2012

fight the feeling.

Há dias em que nada parece acertado e o mais pequeno problema é uma calamidade. Hoje não é um desses dias, mas bem que podia ser. Acordar de manhã, tomar banho, vestir-me, comer, lavar os dentes, sair de casa. Às vezes acho que nem vale a pena. Ficar em casa sem me vestir, sem tomar banho e sem comer, parece-me bem mais atrativo. A verdade é que esta ideia só é atrativa para o meu alter-ego das 8 às 10. O outro, o do resto da manhã, gosta é de acordar cedo para ver o céu ainda preto pela manhã. Mil e uma personagens diferentes, com objetivos diferentes. Contudo, toda esta diversidade não resulta em várias pessoas diferentes dentro de uma. Amanhã, quando acordar, vou continuar a ser o mesmo que fui há 2 dias atrás. Talvez com gostos diferentes, mas exatamente o mesmo. Sincero acima de tudo e sem negar toda a minha vileza e infâmia.

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.” Álvaro de Campos, Poema Em Linha Reta

Nunca é de mais repetir que ninguém é assim. (Não às 8 da manhã, mas nas situações que importam.) Felizmente, eu não desenho smileys nos testes de alunos e não diferencio ninguém. Isso sim, é mesquinho. Nem tenho menosprezado ninguém publicamente recentemente, é de louvar. São alter-egos variados. Com E sou o do resto da manhã, com D sou o das 8 às 10. Décimo segundo, ao que me obrigas.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

gin and juice.

Céu irado. É a única forma que tenho de caracterizar o dilúvio que se fez sentir no Porto. Até tenho medo de sair de casa amanhã, acho que vou ter que ir para a escola de barco. Um passeio de tarde é sempre agradável, uma leve caminhada. No segundo em que ponho um pé fora da porta, começa a trovejar e a chover. Já não havia mais opções, tinha mesmo que percorrer aquele caminho. Parando em todos os prédios e abrigos possíveis e imagináveis, foi esta a minha travessia. Foi realmente uma façanha, fui o primeiro a descobrir o caminho marítimo para Santo Ovídio. As portas automáticas abanavam, os carros pareciam levantar do chão e eu no centro da destruição. Para cumulo, não é o facto de estar uma calamidade lá fora que me enerva, mas sim todas as pessoas que passam de guarda-chuva. Nenhuma desiludiu, todas elas olharam pelo canto do olho, esboçaram um leve sorriso de pena como quem diz - "Deve ser mau estares a molhar-te dessa forma, rapaz.". Sim, é mau e preferia ser ignorado. Assim como preferia ignorar o furacão Sandy. Veio desde Nova Iorque até se despenhar no país. Até já pensei numa nova forma de merchandising. T-shirts com "Eu sobrevivi ao dilúvio! #2012" mesmo na frente. Para toda a gente ler, já que é motivo de orgulho. Orgulho... Não me parece que ainda exista disso por estas bandas. Ou para as bandas de Gabão. Sinceramente, já nem me surpreendo. Lá para a Irlanda do Norte, o tempo também não esteve muito positivo. Espero que não se torne hábito e que dias de Primavera voltem a aparecer. No futebol também.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

futebol.


«Ontem, a liga espanhola entregou os prémios relativos à época de 2011/12 e os resultados são, numa palavra simpática, fascinantes. Então é assim: o Real Madrid, que venceu o campeonato, foi considerado a melhor equipa, mas José Mourinho não foi eleito o melhor treinador: o prémio foi entregue a Pep Guardiola pela segunda época consecutiva. Curiosamente, o Barcelona, que acabou a liga em segundo lugar, também acumulou os prémios para o melhor jogador – Lionel Messi, claro, pela terceira vez seguida – para o melhor médio – Iniesta – o melhor médio-centro – Xavi Alonso – e até o prémio fair-play, entregue a Carlos Puyol. Ora, se o Barcelona tem os melhores jogadores e o melhor treinador, como é que não foi considerada a melhor equipa? E isso já para não perguntar como é que não foi campeão. E, em contrapartida, se os melhores jogadores são do Barcelona e se mesmo assim o Real Madrid é a melhor equipa, como é que José Mourinho não é o melhor treinador? A resposta a esta e a outras perguntas semelhantes é simples: aquilo que a Liga Espanhola premiou ontem não foi a qualidade do trabalho dos treinadores e dos jogadores que atuam em Espanha na última época: foi a sua popularidade. Ora, como tão bem sabemos por cá, José Mourinho nunca foi um treinador particularmente popular aos olhos dos rivais – e foram os rivais que votaram. Em contrapartida, ninguém por cá duvida de que é suficientemente competente para construir a melhor equipa do campeonato espanhol, mesmo sem contar com os melhores jogadores. Deve ser por isso que lhe chamam “Especial”.» Jorge Maia, jornal O Jogo