As minhas mãos não se movem como mãos normais. Vagueiam por vários lugares visitando almas vis, como se fossem feitas de matéria imaterial. Triângulos com quatro lados criam possibilidades irreais e ninguém se apercebe do inimaginável. Como se sonhar não fosse ótimo, como se não fosse o nosso destino quebrar barreiras inexistentes. Comecem todos a ver lcd’s a preto e branco, comecem alguns a ver o céu sem cor, comecem poucos a ver que a terra é inexistente e que ninguém comece a achar que é incorpóreo, porque incorporar a inexistência no que não existe e existe, apesar de se o ver, é demasiado. É demasiado que o incorpóreo dê lugar à sentimentalização de algo novo. A referência aos lcd’s não se torna nada mais do que a falta de um objeto, visto que eu adoro televisões, apenas gostava que este lcd particular, este lcd de milhentas polegadas que têm uma moldura pré-histórica em sua volta, estivesse no meu quarto. É o melhor televisor. A moldura é em tons de castanho, com alguns traços de barroco. A imagem é distorcida porque alguns dos pixéis estão estragados (como eles são bonitos assim, estragados). Apesar de ser um lcd, funciona a cabo de 21 pins porque hdmi é sobrevalorizado. Dá 305 canais e nem tdt ou tv cabo tem. Cada canal tem a sua própria rede privada e só sintoniza para ela, a televisão. Eu quero esta televisão no meu quarto. Eu não quero que ela sintonize em mais lado nenhum. Ou então, que é mais aceitável, que tenha um tricentésimo sexto canal só para mim. Eu sei que tem.