domingo, 12 de maio de 2013
watching movies.
Vivemos a 20 mil léguas de tudo o resto, vivemos numa ilha com todo o tipo de regalias e toda a gente dá preferência a bananas. O homem moderno português consiste em beber cerveja, mandar alguns pedaços de saliva para a televisão de vez em quando, ver a bola quando calha e anseia pela noite de Domingo para ver o que quer que seja que dá na TVI a essa hora. E porquê, e para quê? São todos empresários, políticos, economistas em qualquer café, porque toda a gente faz melhor. E aos Sábados são jogadores de futebol, também. Quando toda a gente andava a viver acima das suas possibilidades, não me lembro de alguém reclamar. Mais tarde, quando havia crise em todo o lado, não se falava de outra coisa nos Estados Unidos, e alguém lhes disse que ia correr tudo bem? Eles acreditaram. Não me venham então dizer que a culpa é do Sócrates, vão-se foder todos, a culpa é vossa, porque é fácil apontar dedos a quem governa, mas é meio palmo de distância mais difícil olhar para o interior. Quando todos os cidadãos decidiram pedir mil e um empréstimos ao mesmo tempo só porque queriam um Mercedes, não vi ninguém a reclamar. Não me venham então dizer que a culpa é dos bancos, vão-se foder todos, a culpa é vossa. E mesmo agora, agora que o país está infestado de corrupção como nunca antes, ninguém diz alguma coisa de jeito. Cantem a “Grândola Vila Morena”. Ficam com a ideia errada de que o que precisam é de relaxar, quando o que é preciso é deixarem-se de merdas de manifestações, levantarem-se mais cedo da cama no dia de folga (sim, porque esse é que é o dia sagrado), conduzirem o carro até Lisboa e insultar toda a gente que está em frente à Assembleia, começar a tirar as pedras das calçadas e começarem a desfazer ideais pré-concebidos e entrarem lá dentro com pedras também, paus, e insultar toda a gente que lá se encontra. E não é como vejo no telejornal das 8, “Seus incompetentes!”, “Não têm vergonha, corruptos!”, “Estamos entroikados!”. Não. Vão-se foder. Deixem essa mansidão de lado, e insultem-nos a sério. Quando passem por um político na rua, cuspam-lhes para os pés e chamem-lhes filhos da puta, chamem-lhes cabrões. Planeiem algo majestoso. Estou farto de ver a UGT a convocar manifestações repetitivas em que só levam é cartazes e bandeiras e megafones. Homens da Luta? Não. Ridículo. Se por acaso entrarem na Assembleia, procurem a senhora dos verdes e cortem-lhe a língua, a mulher irrita-me. Não apontem a culpa aos bancos, mas antes tomem-nos de assalto. Partam janelas. Partam parquímetros. Partam os pórticos das SCUTS. É tudo um sonho, é tudo uma ilusão. Amanhã vou acordar com o telejornal e a primeira notícia que eu vou ouvir é um bando de pardais a cantar o “Grândola Vila Morena”.
sábado, 11 de maio de 2013
segunda-feira, 29 de abril de 2013
Estado de Espírito (V)
Nada me prende a nada.
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo –,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...
Álvaro de Campos
Quero cinquenta coisas ao mesmo tempo.
Anseio com uma angústia de fome de carne
O que não sei que seja —
Definidamente pelo indefinido...
Durmo irrequieto, e vivo num sonhar irrequieto
De quem dorme irrequieto, metade a sonhar.
Fecharam-me todas as portas abstractas e necessárias.
Correram cortinas de todas as hipóteses que eu poderia ver da rua.
Não há na travessa achada o número da porta que me deram.
Acordei para a mesma vida para que tinha adormecido.
Até os meus exércitos sonhados sofreram derrota.
Até os meus sonhos se sentiram falsos ao serem sonhados.
Até a vida só desejada me farta – até essa vida...
Compreendo a intervalos desconexos;
Escrevo por lapsos de cansaço;
E um tédio que é até do tédio arroja-me à praia.
Não sei que destino ou futuro compete à minha angústia sem leme;
Não sei que ilhas do sul impossível aguardam-me náufrago;
Ou que palmares de literatura me darão ao menos um verso.
Não, não sei isto, nem outra coisa, nem coisa nenhuma...
E, no fundo do meu espírito, onde sonho o que sonhei,
Nos campos últimos da alma, onde memoro sem causa
(E o passado é uma névoa natural de lágrimas falsas),
Nas estradas e atalhos das florestas longínquas
Onde supus o meu ser,
Fogem desmantelados, últimos restos
Da ilusão final,
Os meus exércitos sonhados, derrotados sem ter sido,
As minhas cortes por existir, esfaceladas em Deus.
Outra vez te revejo,
Cidade da minha infância pavorosamente perdida…
Cidade triste e alegre, outra vez sonho aqui…
Eu? Mas sou eu o mesmo que aqui vivi, e aqui voltei,
E aqui tornei a voltar, e a voltar.
E aqui de novo tornei a voltar?
Ou somos todos os Eu que estive aqui ou estiveram,
Uma série de contas-entes ligados por um fio-memória,
Uma série de sonhos de mim de alguém de fora de mim?
Outra vez te revejo,
Com o coração mais longínquo, a alma menos minha.
Outra vez te revejo – Lisboa e Tejo e tudo –,
Transeunte inútil de ti e de mim,
Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim -
Um bocado de ti e de mim!...
Álvaro de Campos
Subscrever:
Mensagens (Atom)